E estes foram os desafios propostos, ao longo de um segundo confinamento. Obrigada a quem participou, a quem acompanhou, e a quem, como nós, gostou de vos ter por perto.
Nem nos demos conta, mas a semana passada foi a última reposição desta rubrica, rubrica essa que veio à luz do dia, pela primeira vez, o ano passado aquando o primeiro confinamento.
Se terminou a reposição por aqui, nunca (!), jamais (!) a rubrica acabará, no sentido em que está completamente disponível para vós. Podem aceder a todos os POEMAS com TINTA no nosso canal de youtube ou através do nosso site - sintam-se à vontade para os levarem convosco como e para onde quiserem!
p'la voz de Lina Ramos
Deslizar em tua sombra no disfarce da noite.
Seguir teus passos, tua sombra na janela.
A sombra na janela é a tua, não outra, a tua.
Não abras essa janela atrás da qual te movimentas.
Fecha os olhos.
Queria poder fechá-los com meus lábios.
Mas a janela abre-se e o vento, o vento
que, estranhamente, agita chamas
e bandeiras, encobre com seu manto minha fuga.
A janela abre-se: não és tu.
Eu bem sabia.
Robert Desnos
Sou o homenzinho de orvalho, E com o sol viajo, De leste a Oeste sei, Quem é preguiçoso e quem é laborioso. Ding! Dong! Ding! Dong! Com o dourado dos raios do sol venho E de brilho vossos olhos ilumino E com orvalho fresquinho acordo, O que nos prados e vales está dormindo. Então toca a levantar assim que acordarem Logo de madrugada à hora das matinas, Pois esta aurora ajuda quem madruga, Por isso, toca a levantar, seus dorminhocos, Acordem! A luz do dia já nos sorri! Por isso, toca a levantar seus dorminhocos, Acordem!
ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (excerto) p'la voz de Sérgio Prieto
Olha Olindo crocodilo Com a sua lustrosa cauda. Que despeja as águas do Nilo Em cada escama dourada! Como parece rir de mansinho, Que bem estende as suas garras, A receber os peixinhos Na sua risonha bocarra!
QUANDO ME PENHORARAM INJUSTAMENTE TODOS OS MEUS BENS
P'la voz de Rita Araújo
À Fortuna
Fortuna, que me persegues!
Pequeno triunfo teus:
Eu desejo só vontades,
Tu disputas-me vinténs.
Basta-me o que me deixares,
Quando tudo me levares.
Basta-me esta alma que tenho,
Constante como os penedos;
Bastam-me as águas das fontes,
E a sombra dos arvoredos;
Ponho-me ao fresco no Estio,
E aquento-me, andando ao frio.
Basta-me o Sol, que não podes
Apagar, e à noite a Lua.
Se me tirares a casa,
Irei dormir para a rua.
Sopa, não me dá cuidado,
Tem muitas plantas o prado.
Se o teu rigor se estendesse
A tirar-me o meu tinteiro,
Escreveria nos troncos,
Com um prego, este letreiro:
«Vim ao mundo sem camisa,
Ninguém morrendo a precisa.»
Marquesa de Alorna
AS CHAVES DA CIDADE DE ROMA p'la voz de Rita Araújo
As chaves da cidade de Roma Na cidade de Roma há uma rua, Na rua há uma casa, Na casa há uma porta, Na porta há uma escada, Na escada há uma sala, Na sala há um quarto, No quarto há uma cama, Na cama há uma mesa, Na mesa há um tapete, No tapete há uma gaiola, Na gaiola há um ninho, No ninho há um ovo, No ovo há um pássaro, No pássaro há um coração Aqui está o meu amor. O meu amor está no coração, O coração está no pássaro, O pássaro está no ovo, O ovo está no ninho, O ninho está na gaiola, A gaiola está no tapete, O tapete está na mesa, A mesa está na cama, A cama está no quarto, O quarto está na sala, A sala está na escada, A escada está na porta, A porta está na casa, A casa está na rua, A rua está na cidade de Roma, Aqui estão as chaves da cidade de Roma
p'la voz de Lina Ramos
— Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada…
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!
Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado…
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira —
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.
Não, não estou para mais — não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar…
Que querem fazer de mim com este enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar…
Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho — que amor…
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor —
Plo menos era o sossego completo… História! Era a melhor das vidas…
Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
– Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito…
De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo —
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza…
Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co’a breca! Levem-me prà enfermaria! —
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará.
Justo. Um quarto de hospital — higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível — por causa da legenda…
Daqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda —
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo…
Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora, no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras:
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.
Mário de Sá-Carneiro